NIGHT SESSION
» DJ Thricie As mulheres conquistaram muito espaço em todas as áreas de trabalho, ganhando grande destaque em vários setores.
Na carreira de DJ não é diferente, talvez seja a área em que as mulheres estejam ingressando mais e por inúmeros fatores: talento, carisma, beleza, simpatia, conhecimento, sensibilidade e principalmente competitividade.
Os DJ’s homens começam a olhá-las de outra forma, como pessoas que tem capacidade de conquistar seu espaço e ao mesmo tempo, todo homem tem o prazer de ter uma mulher tocando na mesma noite.
Convidamos uma das DJ’s da noite paulistana para falar um pouco sobre DJs mulheres.
1. Nome?
Patrícia Bender Vellardi
2. Nome artístico?
Dj Thricie
3. Fez Curso? Onde? Começou a tocar quando?
Fiz curso na Rhythm Áudio Produções, com o Dj Akeen e comecei em Julho de 2005 na Temporada de Inverno de Campos do Jordão. Fui com mais 25 modelos trabalhar numa ação da rádio Energia 97. Foi quando o Edu, diretor da PromoAção, descobriu que eu tocava numa das festinhas da casa (onde ficava toda equipe) e me colocou para tocar no estúdio que haviam montado na cidade. Esse foi o meu primeiro trabalho e durou 30 dias seguidos.
4. Atualmente toca em algum lugar?
Faço parte do casting da agência B Side e cada final de semana estou num lugar diferente.
5. Possui um segmento musical fixo? Qual?
House Vocal, Tech-House e Progressive
6. Tem algum outro trabalho além de DJ?
Sou quase Publicitária rs (falta pouco para eu me formar) como não consigo acordar cedo, não trabalho fixo em nenhuma empresa. Então faço alguns trabalhos como modelo, fotos, feiras e eventos.
7.Por que a profissão de DJ lhe atraiu?
Acho que desde criança eu já era DJ e não sabia (rs). Lembro que gostava de ficar aumentando e abaixando o volume das músicas depressa (nas festinhas de casa e de escola) além das “Coletâneas” que eu fazia... Eu ganhei aquele “Meu Primeiro Gradiente” então ficava gravando as músicas encostando o microfone colorido que vinha com ele nos falantes do radio FM de casa (rs) só que como eu não entendia o nome de nada para fazer o tracklist, o nome da música era sempre um pedaço do refrão. Tipo Bizarre Love Triangle do New Order, no meu “tracklist mirim” chamava Every time I see you, depois disso recortava varias palavras e fotos coloridas pra fazer a capinha da fita k7.
Quando eu tinha uns 8 anos, tínhamos aqui em casa um toca-discos da “National” e na época a Xuxa levava vários DJs em
seu programa ate os homenageou com a musica “Hey Dj” e eu ficava tentando fazer os scratches igual os que eles faziam no programa. Minha avó ficava maluca, dizia que se eu não parasse de mexer, eu ainda ia quebrar a agulha e riscar todos os discos.
Anos depois ouvi uma propaganda do curso para DJs, me matriculei só por hobby mas logo comecei a fazer alguns trabalhos.
8. Como é ser uma DJ mulher no meio de tantos DJs homens?
É muito legal... Embora já existam várias DJs mulheres por aí, o pessoal ainda olha com aquela cara de “Será que ela toca mesmo?!” (rs). Teve uma GIG, que toquei recentemente, onde um dos donos me disse brincando: “Se precisar de alguma ajuda dos meninos (os residentes) pode pedir ta!” Dei um sorrisinho e pensei comigo, acho que para abrir uma Ice talvez. Ele já me levou de volta ao club duas vezes depois disso! (rs)
9. Dizem que a mulher é menos valorizada que os homens em diversas áreas, como DJ acontece o mesmo?
Não, pelo menos nessa área. Como o número de DJs mulheres ainda é bem menor, acho que somos tão valorizadas quanto eles. Antigamente acredito que era diferente, assim como na outras profissões. Mas as mulheres já conseguiram provar que tocam tão bem quanto os homens.
10. Balada boa é balada com muita mulher bonita. Você acha que balada boa também acontece com uma DJ mulher bonita?
Olha, lógico que ajuda estar bem produzida e bem vestida. Mas tudo isso vai por água abaixo quando ela não toca tão bem quanto aparenta. Nesse caso, acho que a Dj precisa se superar, porque caso contrário eles falam: é só bonitinha mesmo, tocando é fraquinha. E ninguém quer ouvir isso.
11. Quando você começou a tocar, existiu algum tipo de discriminação?
Não senti descriminação alguma, acho que até me ajudaram, minha classe era grande, eram 15 ou 16 alunos sendo cinco meninas... Quando eu sentia dificuldades sempre me ajudavam e mesmo quando já havia acabado o curso, os DJs sempre davam um help quando não conhecia o mixer ou coisas desse tipo.
12. O que você sente do público quando eles olham uma DJ mulher tocando? Acham legal? Olham-te diferente?
Eu sinto que chama atenção, o pessoal gosta de ver e ouvir. Os homens gostam, acenam com coraçõezinhos e querem dar a mão rs e as mulheres ficam contentes de ter uma representante delas na cabine... Elas também gostam porque o meu som sempre foi totalmente voltado para elas.
Quando as mulheres dançam todo mundo dança a pista sempre fica cheia.
13. Já houve alguma situação desagradável como você, independente de ser mulher?
Nossa!!! Na minha primeira GIG, há 5 anos, faltou energia elétrica duas vezes no meio do meu set... apagaram-se todas as luzes e o som parou. Imagina? Eu já estava super nervosa por ser a primeira GIG (rs) o meu line era depois do DJ Silvinho (o que toca black-music, sabe?), e durante o set dele foi tudo bem, em compensação no meu... Dois apagões eu ouvi um “errrrrrrrrrrrrrrrrr” enorme, os segundos sem luz foram os mais longos do mundo.
Já aconteceu de baterem a mão na cabine e o CD pular...Ainda bem que hoje os CDJs já são mais resistentes a esses impactos.
14. Dizem que as mesmas dificuldades encontradas na noite de baladas, são divididas por homens e mulheres, você também acha isso?
Ah sem duvida, situações difíceis como as que relatei anteriormente, não escolhem sexo.. acontecem pra todo mundo... Talvez seja mais fácil pra nós mulheres contornarmos certas coisas por sermos mais delicadas e tal.
15. Algumas mulheres tocam semi-nuas, com homens isso também acontece, você toca assim ou tocaria assim?
Homens tocam sem camisa em algumas baladas GLS, mas não para aparecer, mas sim porque todo o público fica sem camisa... sem ser nessa situação nunca soube de homens tocando semi-nus.
Jamais tocaria assim e não acho bacana as mulheres que fazem isso.
Se a música eletrônica tem um espaço bom e em ascensão hoje em dia, é porque foi feito um trabalho desde o finalzinho da década de 70 para que isso acontecesse. Os DJs dessa época sofreram uma série de preconceitos com o novo estilo que estavam implementando na cena. Tiveram seus discos quebrados em NY num movimento do rock contra a dance music e reiniciaram em Chicago praticamente do zero tudo que já havia sido feito.
Na década de 60, as feministas queimaram sutiãs em praça pública para expressar a necessidade de mudança do papel da mulher na sociedade, brigaram por um espaço igual em todos os campos de trabalho e somente desde 1988 (há 21 anos) é que conquistamos a igualdade entre os homens e mulheres na Constituição brasileira.
Não entendo porque para serem Djs algumas mulheres querem ficar de TopLess ou de lingerie... Há mulheres que ocupam profissões que eram predominantemente masculinas, (engenheiras, pilotas de avião, motoristas) que não trabalham despidas. Isso vai contra tudo o que já foi feito e conquistado tanto na cena eletrônica quanto na sociedade.
As “DJs Woman” têm que mostrar com trabalho e não com o corpo que também podem assumir a cabine e fazer um bom trabalho numa GIG.
Imaginem os deejays de 70 vendo que todo esse sacrifício pode ser substituído por um par de seios e as feministas de 60 vendo que algumas mulheres só se destacariam no mercado tirando a roupa?!
Acredito ainda que até os contratantes estejam começando a ver essa situação com maus-olhos. Um produtor de eventos me procurou dizendo que queriam uma DJ mulher e me perguntou: mas você toca mesmo ou é daquelas que “enganam” peladas? rsrs
Isso não quer dizer que eu me apresente de moletom largo ou toda tampada, sou vaidosa e gosto de estar bem produzida, mas deixo claro que o meu foco não é esse e sim tocar músicas legais que as pessoas gostem e que mantenham a pista sempre em movimento.
16. Ainda temos baladas somente com DJ’s homens, você acha que baladas somente com DJ’s mulheres daria certo?
Em termos de talento, claro que daria certo.
Mas se eu estivesse abrindo uma balada, eu teria como residentes um homem e uma mulher (se revezando, uma noite a mulher faz o warm-up e o homem fecha e na outra noite ele faz warm-up e ela fecha) e traria DJs convidados para fazer o horário do meio (homens ou mulheres). Porque as mulheres que freqüentam a noite gostam de ser “amigas” do DJ, de dançar com ele, ser convidada por ele etc. Mas também gostam muito do som das mulheres. Então dessa forma todos sairiam contentes!
17. Você lançou um set de House totalmente brasileiro. De onde veio a idéia?
No meu set anterior ao brasileiro, o All Night Long, a 2ª faixa tinha uma pegada meio brasileira e um monte de gente me disse que a música era legal e diferente e fiquei com isso na cabeça. Em Novembro toquei na Costa do Sauípe, fiz o Warm-Up da Claudia Leite com música eletrônica e senti que se tivéssemos mais música eletrônica junto com timbres e vocais brasileiros poderíamos conquistar um público que hoje em dia não gosta tanto assim de eletrônico. A maioria que não gosta é porque não fala inglês e não entende nada do que está sendo cantado, se essas pessoas se identificassem com algo, seria mais fácil.
Foi o meu set mais baixado ate hoje, 4x mais downloads que o anterior. Eu gostaria de conseguir incentivar essas produções, gosto do som do Tikos Groove (produtor brasileiro que atua com produções nacionais) e acho que faltam produtores que acreditam no potencial musical do nosso país
18. Como seus amigos e parentes mais próximos olham você como DJ mulher?
Bom a minha mãe e minha avó (que ainda era viva quando eu comecei) não gostaram nem um pouco disso no começo, mas não deram muita importância porque acharam que seria uma fase no meu comportamento.
Quando estava tocando em Campos do Jordão em 2005, minha mãe foi me visitar, entrou na cabine, (era uma bolha de vidro da energia 97) viu e ouviu os meus CDS... Era um dia ensolarado e foi a primeira vez que ela começou a ver minha carreira com bons olhos e a se adaptar com tudo isso... Hoje ela sempre tem um flyer meu na bolsa para mostrar para as amigas rs virou uma mãe super coruja. Às vezes quando estou baixando músicas ela fala coisas do tipo: “Nossa, essa é da minha época, mas esta “de roupinha nova” ou essa eu não gosto, esta muito barulhenta...”
Os amigos mais próximos também participam, baixam meus sets, vão às festas mais legais etc.
19. Como foi o ano de 2009 pra você? E o que pretende em 2010?
Foi um ano muito bacana profissionalmente e de muitas mudanças. Mudei o segmento do trabalho que eu vinha fazendo há 4 anos, meus sets hoje são mais pesquisados e menos comerciais do que eram antes, mas sem perder minha identidade, por exemplo se eu sentir necessidade de tocar um hit vou tocá-lo mas numa versão diferente. Em agosto entrei na B Side, e senti que esse amadurecimento seria cobrado se eu não fizesse essas mudanças.
Foi muito bom pra mim, toquei em lugares diferentes, conheci gente nova e estou muito mais segura. Nesse ano, 2010, estou focada em aperfeiçoamentos. Começo a estudar canto em fevereiro e o Ableton Live será o meu próximo passo, mas como uma boa virginiana só vou arriscar um Live quando estiver perfeito!
Ah! Voltei a “blogar” também; estou com um blog bem bacana, voltado para pessoas normais (não soh para djs) que queiram pegar uma letra de musica, terem um dica de moda, de balada, verem lançamentos de eletrônicos ou algumas curiosidades sobre assuntos interessantes.
20. O que é necessário para ser uma DJ mulher?
O mesmo que os homens precisam (rs)
Um bom case, um feeling legal, tem que saber o que tocar na hora certa, o que tocar quando o DJ de antes entrega a pista meio vazia, ter uma “carta na manga” que surpreenda as pessoas...
Precisa interagir com a pista. Eu acho muito feio DJ que toca parado. Além disso, carisma, simpatia e dedicação. As pessoas pensam que a gente chega lá e toca o que tiver no case. E não é assim, existe o trabalho de pesquisa musical, é um mercado que se atualiza muito depressa e precisamos acompanhar sempre.
No caso das mulheres, precisam ficar esperta com certas coisas. Bebida demais, os tais “boa noite Cinderela”, não beber nada do copo dos outros. Essas coisas que os pais de todo mundo falam e que nem sempre damos ouvidos...
E principalmente ir tocar com o intuito de fazer as pessoas dançarem. A maioria do público que frequenta a noite, têm dias de trabalho bem desgastantes durante a semana, estão lá para descontrair e se divertir, ouvir as músicas que gostam. E esse é o nosso trabalho.
www.myspace.com/djthricie - www.twitter.com/djthricie
www.djthricie.wordpress.com
www.agenciabside.com.br
Sets para Downloads:
All Night Long
http://www.4shared.com/file/124473696/72dcc41b/01_Faixa_1_1.html
Made In Brazil
http://www.4shared.com/file/164758354/99b380e5/_2__Dj_Tricie_-_Brasil.html
A Rádio Giga agradece a atenção e simpatia da DJ Thricie em responder nossas perguntas e esperamos que tenhamos contribuido para que as DJs mulheres estejam cada vez mais envolvidas na cena, eletrônica principalmente.
DJ Fábio Reder
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